Primavera do Leste 40 anos: a história da cidade que nasceu no Cerrado e se transformou em potência do agronegócio
Muito antes de se tornar um dos municípios mais ricos e promissores de Mato Grosso, Primavera do Leste era apenas uma extensa área de cerrado cortada por antigas trilhas de tropeiros, córregos e estradas improvisadas. A região, localizada no sudeste mato-grossense, começou a ganhar importância ainda no início do século XX, quando as expedições ligadas às linhas telegráficas comandadas pelo Marechal Cândido Rondon passaram pelo local durante os trabalhos de integração territorial do Brasil.
Na década de 1960, o território era conhecido por nomes curiosos e informais, como Bela Vista das Placas, Cabeceira da Velha Joana e simplesmente BR-070. O nome “Bela Vista das Placas” surgiu porque viajantes utilizavam placas improvisadas à beira da estrada para indicar caminhos, fazendas e pontos de referência. Já o nome “Velha Joana” nasceu por causa de uma mulher simples e misteriosa que se tornou personagem importante da memória local.
Dona Joana, conhecida pelos pioneiros como “Velha Joana”, foi uma das primeiras moradoras da região. Ela vivia próxima a um córrego que mais tarde recebeu seu nome, onde hoje fica a região do Parque Eldorado. Os relatos antigos contam que Joana morava de forma extremamente simples, praticamente isolada, em meio ao cerrado. Durante muitos anos, caminhoneiros, tropeiros e aventureiros que cruzavam a região usavam sua moradia como referência geográfica. Por isso, o córrego e toda a área acabaram associados ao seu nome, eternizando sua presença na história de Primavera do Leste.
O processo de ocupação mais intensa começou a partir dos incentivos criados pelo governo federal durante os anos 1970. Programas como Pró-Terra, Polo Centro e ações da Sudam estimularam produtores rurais do Sul e Sudeste do país a migrarem para o cerrado mato-grossense. Na época, o governo acreditava que a região poderia se transformar em uma nova fronteira agrícola brasileira.
Foi nesse contexto que surgiu o nome de Edgard Cosentino, considerado um dos principais fundadores de Primavera do Leste. Advogado paulista e empresário visionário, ele chegou à região no início da década de 1970 e enxergou um potencial que poucas pessoas conseguiam imaginar. Enquanto muitos observavam apenas terra seca, vegetação baixa e longas distâncias sem infraestrutura, Cosentino acreditava que ali poderia nascer uma cidade planejada e economicamente forte.
A escolha da área ocorreu justamente pela posição estratégica do território. A região estava localizada próxima à BR-070, importante corredor rodoviário que ligava Cuiabá ao estado de Goiás e facilitava o transporte de produtos agrícolas. Além disso, havia terras extensas e relativamente baratas, adequadas para projetos de agricultura mecanizada. O relevo favorecia o cultivo em larga escala e permitia a implantação de modernas técnicas agrícolas que começavam a transformar o cerrado brasileiro.
O projeto urbanístico da futura cidade foi lançado oficialmente em 26 de setembro de 1979 pela Construtora e Imobiliária Cosentino. A ideia era ousada para a época: criar uma cidade planejada no meio do cerrado mato-grossense, oferecendo infraestrutura desde o início para atrair produtores, comerciantes e famílias interessadas em construir uma nova vida.
O nome “Primavera” foi sugerido por Lilian Maria Ometto Cosentino, esposa de Edgard Cosentino. Segundo relatos históricos, a palavra remetia à ideia de renascimento, prosperidade e florescimento, simbolizando o nascimento de uma nova cidade no coração do cerrado. Inicialmente, o empreendimento recebeu o nome de “Cidade Primavera”. Mais tarde, durante o processo de emancipação política, surgiu a proposta de chamá-la “Primavera D’Oeste”. Contudo, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso rejeitou a sugestão porque o município estava localizado na porção leste do estado, e não na região oeste. Depois de debates entre lideranças locais, ficou definido o nome “Primavera do Leste”, oficializado pouco antes da emancipação.
Nos primeiros anos, viver na região era um enorme desafio. Os pioneiros enfrentavam isolamento, estradas precárias, ausência de energia elétrica em muitas áreas, falta de assistência médica e dificuldade até mesmo para conseguir alimentos. Muitos produtos precisavam ser buscados em Poxoréu ou em cidades distantes. Quando chovia, caminhões atolavam por dias inteiros e famílias ficavam praticamente ilhadas.
Os primeiros moradores viviam em casas simples de madeira, barracos improvisados ou alojamentos montados próximos às áreas de lavoura. Era comum famílias inteiras ajudarem na abertura das terras, no plantio e na construção das primeiras estruturas urbanas. A poeira vermelha durante o período seco e a lama intensa na época das chuvas faziam parte do cotidiano.
Apesar das dificuldades, os pioneiros mantinham forte espírito comunitário. Um ajudava o outro na abertura de estradas, construção de pontes, transporte de máquinas e até em atendimentos médicos improvisados. Muitas vezes, as reuniões sociais aconteciam em galpões, postos de combustível ou pequenos bares que funcionavam como centros de convivência da comunidade.
Os primeiros estabelecimentos comerciais tiveram papel fundamental na sobrevivência da população. Entre os mais antigos estavam pequenos armazéns, botecos e pontos de apoio para caminhoneiros. Um dos primeiros empreendedores citados nos registros históricos foi Adevino Castelli, que em 1976 construiu um barracão metálico para armazenamento de arroz. Castelli também participou da criação do Posto Barril, referência regional nos primeiros anos de colonização.
Outro estabelecimento importante foi o restaurante Santo Antônio, administrado pela família Ravanello, que atendia viajantes, produtores rurais e trabalhadores da região. Pequenas vendas e mercados começaram a surgir ao redor da BR-070, impulsionando o nascimento do núcleo urbano.
As rodovias tiveram papel decisivo no desenvolvimento do município. A BR-070 se tornou a principal ligação de Primavera do Leste com Cuiabá, Goiás e outras regiões do país. Já a MT-130 ajudou a integrar áreas agrícolas e municípios vizinhos, sendo fundamental para o escoamento da produção. Há registros de que o médico e pioneiro Sabino Arias participou da abertura dos primeiros quilômetros da estrada que mais tarde se transformaria na MT-130.
Na prática, a cidade nasceu graças ao agronegócio. Os produtores que chegaram do Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo trouxeram técnicas modernas de cultivo e começaram a investir pesado na correção do solo do cerrado. Muitos chegaram a duvidar que a terra pudesse produzir. Era necessário aplicar toneladas de calcário e fertilizantes para tornar o solo fértil.
Os relatos dos pioneiros mostram como a agricultura foi construída praticamente do zero. Máquinas quebravam com frequência, faltavam oficinas especializadas e peças demoravam semanas para chegar. Ainda assim, a persistência dos colonizadores transformou a região em uma potência agrícola reconhecida nacionalmente.
Com o rápido crescimento populacional, Primavera foi elevada à categoria de distrito de Poxoréu em 1981. O avanço econômico e urbano, porém, fez surgir rapidamente o desejo de emancipação político-administrativa. Lideranças locais entendiam que o distrito precisava de autonomia para acelerar investimentos e organizar os serviços públicos.
Em 24 de agosto de 1984 foi criada a Comissão Pró-Emancipação, formada por 26 pioneiros. O grupo escolheu por unanimidade Darnes Egydio Cerutti para presidir os trabalhos. Cerutti, empresário gaúcho que havia chegado à região nos anos 1970, tornou-se um dos principais líderes do movimento emancipacionista.
Após uma série de debates políticos e exigências legais, foi realizado um plebiscito em 21 de abril de 1986. A população compareceu em peso às urnas e aprovou a emancipação do distrito. Pouco tempo depois, em 13 de maio de 1986, o então governador de Mato Grosso, Júlio Campos, assinou a Lei Estadual nº 5.014, criando oficialmente o município de Primavera do Leste.
A instalação oficial do município abriu caminho para as primeiras eleições locais. Em novembro de 1986, Darnes Egydio Cerutti, do PMDB, venceu a disputa para prefeito contra José Fernandes Barbosa, do PFL. Milton João Braff foi eleito vice-prefeito. Cerutti assumiu a administração em 1987 e entrou para a história como o primeiro prefeito de Primavera do Leste.
Os desafios enfrentados pela primeira gestão eram enormes. A prefeitura praticamente não existia fisicamente. Relatos históricos mostram que móveis e objetos pessoais precisaram ser levados das casas dos próprios gestores para montar a estrutura administrativa inicial. Não havia equipamentos, servidores suficientes ou recursos financeiros abundantes.
Mesmo assim, a administração começou a implantar serviços considerados essenciais para a sobrevivência do novo município. Foram criados os primeiros postos de saúde, escolas, biblioteca pública, estradas vicinais, pontes e projetos habitacionais. Também começaram os investimentos em urbanização e infraestrutura.
Na primeira legislatura municipal foram eleitos os vereadores Adevino Castelli, Antônio Renosto, Leonildo Gorri, Waldomiro Riva, Sérgio Luiz Costa, Waldemar Arequini e Paulo Zeni. Eles participaram da elaboração das primeiras leis municipais e da estruturação política da nova cidade.
A memória dos primeiros nascimentos em Primavera do Leste ainda desperta debates entre pesquisadores e pioneiros. Muitos registros da época eram precários e parte da documentação acabou se perdendo. Contudo, há relatos históricos de famílias pioneiras que tiveram filhos logo nos primeiros anos da formação urbana. Um dos registros mais conhecidos preservados oficialmente pela prefeitura menciona o nascimento dos gêmeos Fabiane e Fernando Machnic, em 1986, reconhecidos como os primeiros gêmeos registrados após a emancipação do município. Entre os nomes ligados às primeiras gerações nascidas em Primavera do Leste também está Everton Plínio Martiny, nascido em 12 de janeiro de 1986 no Hospital São Lucas. Filho de uma família pioneira vinda de Porto Alegre, Everton cresceu acompanhando o desenvolvimento da cidade desde seus primeiros anos. Conhecido posteriormente como “loirinho do posto”, atuou na área administrativa do posto de saúde do bairro Primavera III e ficou marcado pela dedicação à comunidade, realizando atendimentos e auxiliando moradores além de suas funções formais. Sua trajetória se conecta diretamente à história de crescimento do município e representa a geração que nasceu junto com a consolidação de Primavera do Leste.
Ao longo das décadas seguintes, Primavera do Leste cresceu em ritmo acelerado. O município consolidou sua economia baseada na produção de soja, milho, algodão e pecuária, atraindo empresas, indústrias, cooperativas e novos moradores. A cidade também passou a investir fortemente em educação, saúde e infraestrutura urbana.
Hoje, Primavera do Leste é considerada uma das cidades mais desenvolvidas de Mato Grosso e símbolo da força do agronegócio brasileiro. O município se destaca pela elevada produtividade agrícola, pela organização urbana e pelo forte espírito empreendedor herdado dos pioneiros.
Ao completar 40 anos de emancipação em 13 de maio de 2026, Primavera do Leste celebra não apenas números econômicos impressionantes, mas principalmente a coragem daqueles homens e mulheres que enfrentaram o isolamento do cerrado para construir uma cidade moderna e próspera. A história do município é marcada pela visão de futuro de seus fundadores, pelo trabalho coletivo dos pioneiros e pela capacidade de transformar desafios em desenvolvimento.
Quatro décadas depois da assinatura da lei que criou oficialmente o município, Primavera do Leste segue crescendo sem perder a memória de suas origens. Nas avenidas modernas, nos campos agrícolas altamente produtivos e nos bairros que continuam surgindo, permanece viva a essência dos pioneiros que acreditaram que, no meio do cerrado mato-grossense, poderia florescer uma nova primavera.
Fontes consultadas: Instituto Memória da Câmara Municipal de Primavera do Leste, Prefeitura de Primavera do Leste, registros históricos locais, arquivos jornalísticos, publicações sobre a colonização do município e pioneira Nerci Terezinha Martiny.















